E hoje é dia de Milwaukee, cidade do impagável Jeffrey Dahmer, que sequestrou, assassinou, estuprou, esquartejou e se alimentou de umas 17 pessoas, não necessariamente nesta ordem. Com direito a pedaços das refeições guardados na geladeira. Devo ter comido até mais coitadas do que ele, mas nenhuma delas literalmente. Lastimavelmente, não é mais possível fazer a peregrinação ao prédio em cujo apartamento tudo aconteceu, e que, diz a lenda, exalava um cheiro mais revoltante do que o meu no tempo em que havia um gato e um carpete lá dentro, porque foi demolido.
O dia hoje foi passado sob uma chuva mais nojenta do que a caligrafia do Lula. Ainda assim, deu pra chegar até a porta (só até a porta...) dos museus que cobravam entrada, assistir a uma apresentação bem curta da orquestrinha da universidade local, com Smetana e outros notórios desconhecidos no programa, e à noite, mais uma grata e bizarra surpresa: show do Adam Ant, com abertura dos....Brothers of Brazil!!!
Pareceu-me um bom argumento que, se eu jamais assistiria ao Supla no Brasil, deveria forçosamente assisti-lo aqui tão longe... E até que a apresentação foi bem menos lastimável do que tinha potencial para ser.... Em que pesem toda a carnavalização e macaquice desnecessárias para gringo ver, até dava pra divisar aqui e ali umas músicas honestamente compostas, e aceitavelmente executadas.
Quanto ao próprio Adam Ant, que dizer? Há algo que dispensa comentários na imagem de um tiozinho meio barrigudo vestido de pirata tentando rebolar pelo palco, sendo efusivamente aplaudido por gente igualmente sexagenária e inegociavelmente obesa na platéia. Em comparação com os dois ou três discos que tenho dele, tudo é um pouco mais pesado, como inevitável com duas guitarras e duas baterias no grupo, e o volume mais alto e a casa mais cheia do que em Salt Lake City, mas, enfim, ir a show de rock, como praticamente qualquer outra coisa na vida, é algo que a gente faz sem pensar muito. Se pensa um pouco melhor, acaba preferindo ficar em casa escutando música new age com fones de ouvido...
domingo, 14 de outubro de 2012
sábado, 13 de outubro de 2012
13/10 - Minneapolis - Minnesota
E hoje, depois de perder a hora de acordar, provável reflexo das últimas noites levantando de madrugada para pegar o ônibus ou passadas dentro dele, finalmente a chuva resolveu incomodar, forçando uma estadia mais prolongada, mas não totalmente desperdiçada, dentro de um museu, e meio que abortando o projeto de ir também até St. Paul. Mas até não foi um dia maçante, incluindo um cinema a $ 8,50, no qual não havia absolutamente qualquer controle sobre a entrada nas salas, o que me deixou mezzo maravilhado com a noção de civilidade cotidiana daqui, que não chega a ser assim um Canadá, e, como bom brasileiro, mezzo puto com a sensação de que paguei à toa.
Outra constatação é a de que os banheiros públicos daqui não têm o infame lixinho ali do lado da privada, o papel higiênico simplesmente segue o caminho daquilo que ele acabou de limpar e todos ficam felizes. E que, ao contrário da Europa, onde tudo acabava numa igreja turística, aqui não se dá muita bola pra isto, destinos religiosos não são citados em guias ou material informativo, mesmo sendo um país em que uns 20% da população é desavergonhadamente criacionista...
Outra constatação é a de que os banheiros públicos daqui não têm o infame lixinho ali do lado da privada, o papel higiênico simplesmente segue o caminho daquilo que ele acabou de limpar e todos ficam felizes. E que, ao contrário da Europa, onde tudo acabava numa igreja turística, aqui não se dá muita bola pra isto, destinos religiosos não são citados em guias ou material informativo, mesmo sendo um país em que uns 20% da população é desavergonhadamente criacionista...
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
12/10 - Minneapolis - Minnesota
E então chego à cidade natal do Prince, em um ônibus absolutamente vazio, à exceção de nós. Finalmente um pouco de vingança contra a empresa de ônibus, que certamente perdeu uma grana nesta corrida interestadual particular.
E, subitamente, pela primeira vez na viagem....edifícios! A sensação é como entrar no ônibus em Teresina e, umas 4 horas depois, chegar em, se não São Paulo, ao menos assim em Curitiba. As distâncias pela cidade ainda são grandes pra quem está a pé, mas agora percorridas sobre coisa melhor do que terrenos vazios ou casinhas de subúrbio. O preço do hotel é condizentemente maior, mas na recepção tem café de graça com leitinho sabor amaretto e irish coffe para misturar. E, finalmente, trânsito na rua, e gente andando nas calçadas....
Depois, à noite, ainda rolou, e de graça, um musical barra-pesada sobre uma mulher bipolar que perde um filho, é submetida a ECT e coisa e tal, muito inteligentemente escrito e bem dignamente composto, Next to Normal. E ao final da apresentação, Aderbalzinho ainda ficou lá participando do debate com o produtor da peça e a platéia, com meu inglês cada vez mais residual e patético. Mas quem era o único psiquiatra no estabelecimento, né?
É esta talvez a única vantagem de se submeter ao tédio de existir: ocasionalmemte, e inopinadamente, o acaso joga uma pérola no seu colo... Continua não valendo a pena, se comparada com o plácido e sereno ocaso do Nada, mas, de qualquer modo, ganhei o dia.
E é indubitável, o musical é a evolução da ópera. Recentemente fui ver o Crepúsculo dos Deuses, Pelléas e Melisande, gastei uma puta grana, e não chegam no sovaco de um musicalzinho encenado humildemente, com uma bandinha de uns 5 instrumentistas, aqui longe no Minnesota.
E, subitamente, pela primeira vez na viagem....edifícios! A sensação é como entrar no ônibus em Teresina e, umas 4 horas depois, chegar em, se não São Paulo, ao menos assim em Curitiba. As distâncias pela cidade ainda são grandes pra quem está a pé, mas agora percorridas sobre coisa melhor do que terrenos vazios ou casinhas de subúrbio. O preço do hotel é condizentemente maior, mas na recepção tem café de graça com leitinho sabor amaretto e irish coffe para misturar. E, finalmente, trânsito na rua, e gente andando nas calçadas....
Depois, à noite, ainda rolou, e de graça, um musical barra-pesada sobre uma mulher bipolar que perde um filho, é submetida a ECT e coisa e tal, muito inteligentemente escrito e bem dignamente composto, Next to Normal. E ao final da apresentação, Aderbalzinho ainda ficou lá participando do debate com o produtor da peça e a platéia, com meu inglês cada vez mais residual e patético. Mas quem era o único psiquiatra no estabelecimento, né?
É esta talvez a única vantagem de se submeter ao tédio de existir: ocasionalmemte, e inopinadamente, o acaso joga uma pérola no seu colo... Continua não valendo a pena, se comparada com o plácido e sereno ocaso do Nada, mas, de qualquer modo, ganhei o dia.
E é indubitável, o musical é a evolução da ópera. Recentemente fui ver o Crepúsculo dos Deuses, Pelléas e Melisande, gastei uma puta grana, e não chegam no sovaco de um musicalzinho encenado humildemente, com uma bandinha de uns 5 instrumentistas, aqui longe no Minnesota.
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
11/10 - Sioux Falls - South Dakota
Agora começa o lento retorno em direção à civilização, aos poucos deixando os rincões para trás, e seguindo em direção à costa leste. Sioux Falls, apesar de não ser a capital, já tem um centro de cidade um pouco maior do que uma ou duas ruas principais, museus um pouco mais elaborados, e avenidas enormes, ainda assim praticamente desertas, e com raríssimas pessoas andando a pé pelas ruas. Parece ser efeito da baixa temporada, que na América profunda é bem pronunciada, e da qual vamos fugindo, com quase toda e qualquer atividade sendo interrompida em meados de outubro. Aqui também, como em Idaho Falls, há um parque central até mais bonitinho, com cachoeirinhas, em um rio com, desta vez, um aroma mais próximo ao de nosso querido Pinheiros.
O projeto de fugir da rota turística e comprar as passagens e reservar os hotéis dia-a-dia, acaba não sendo o mais econômico possível e demanda um tempo razoável de pesquisa e planejamento, mas tem oferecido mais novidade do que, sei lá, ir parar em Amsterdam pela vigésima-sétima vez.... Mas, por outro lado, já que eu sou o Aderbal e não me encanto nunca, há algo de repetitivo na novidade, as cidades inéditas se reprisam, e a própria repetição do novo acaba dando lugar a uma nova repetição. Pronto, reclamei.
O projeto de fugir da rota turística e comprar as passagens e reservar os hotéis dia-a-dia, acaba não sendo o mais econômico possível e demanda um tempo razoável de pesquisa e planejamento, mas tem oferecido mais novidade do que, sei lá, ir parar em Amsterdam pela vigésima-sétima vez.... Mas, por outro lado, já que eu sou o Aderbal e não me encanto nunca, há algo de repetitivo na novidade, as cidades inéditas se reprisam, e a própria repetição do novo acaba dando lugar a uma nova repetição. Pronto, reclamei.
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
10/10 - Rapid City - South Dakota
Pronto, e finalmente Mount Rushmore, que junto com o Alaska ainda resistia como um um destino turístico a ser conquistado, mas até agora sempre distante e inalcançável demais para ser tentado. Dois sonhos que agora se tornam memórias, dois lugares a menos para poder visitar. Meu futuro acaba de se tornar um pouco mais despropositado, e o enorme resquício de vida que ainda me infesta, ainda mais parasita. Engraçado como parece haver mais abertura em me definir como o cara que ainda visitará Mt. Rushmore um dia do que como o que agora já o visitou. É o paradoxo dos projetos. Não contem pra ninguém, mas sonhos não são para serem vividos, e sim para, se formos espertos, fingirmos indefinidamente para nós mesmos que os viveremos um dia.
Em seguida, o monumento de Crazy Horse, que levou uns 60 anos para ter a face esculpida, e deve levar mais uns 300 para ser finalizado. É um projeto privado, iniciado por um dos escultores auxiliares em Mt. Rushmore, e atualmente tocado pela esposa velhinha e seus muitos filhos. No início, me horrorizei com como provavelmente mais umas 3 gerações da família se verão escravizadas pela necesssidade de levar adiante o legado, e algumas destas pessoas dedicarão a vida toda a esculpir um pedaço de braço ou três dedos de uma mão... Mas então me dei conta de como é exatamente este tipo de projeto, que garantidamente sobreviverá a seu perpretador, que o poupa do pânico de inventar novas mentiras após novas mentiras para dar algum propósito à sua existência. Bem melhor do que aqueles projetos que podem ser consumados, que nos parecem mais desejáveis, mas, na verdade, são tão danosamente enganadores.
Em seguida, o monumento de Crazy Horse, que levou uns 60 anos para ter a face esculpida, e deve levar mais uns 300 para ser finalizado. É um projeto privado, iniciado por um dos escultores auxiliares em Mt. Rushmore, e atualmente tocado pela esposa velhinha e seus muitos filhos. No início, me horrorizei com como provavelmente mais umas 3 gerações da família se verão escravizadas pela necesssidade de levar adiante o legado, e algumas destas pessoas dedicarão a vida toda a esculpir um pedaço de braço ou três dedos de uma mão... Mas então me dei conta de como é exatamente este tipo de projeto, que garantidamente sobreviverá a seu perpretador, que o poupa do pânico de inventar novas mentiras após novas mentiras para dar algum propósito à sua existência. Bem melhor do que aqueles projetos que podem ser consumados, que nos parecem mais desejáveis, mas, na verdade, são tão danosamente enganadores.
terça-feira, 9 de outubro de 2012
09/10 - Rapid City - South Dakota
O tempo tem sido cordial... Desde o início da viagem, só dias ensolarados (na verdade, até com um sol ardido demais), com excessão de um pouco de chuva em Seward, dentro de um barco e depois da van de volta a Anchorage, e hoje, quando nevou um pouquinho pela manhã, mas neve não molha, para depois o sol se abrir novamente. A cidade segue o padrão de duas ruazinhas centrais cercadas por centenas de quadras de periferia, mas com uma idéia interessante: estátuas de bronze em tamanho real de cada um dos porrilhões de presidentes do país em cada esquina de cada quarteirão do centro da cidade, que não é grande. Fico imaginando a mesma ideia no Brasil: Fernando Collor, José Sarney, Lula... Haja pombos para cagar em cima...
Tem piscina aqui no hotel, mas estou resistindo ferozmente a usá-la, porque aí teria que publicar uma foto minha de sunguinha no blog, e minha barriguinha faria todas minhas não-leitoras perder o sono e ter pesadelos. E aí,pra fechar a noite, cineminha a dois dólares por cabeça. E voltar pro hotel sendo acariciado pelos 3 graus centígrados lá fora. Se deus existisse, ele seria quântico. Manifestar-se-ia por um intervalo ínfimo de tempo, e então desapareceria no vácuo novamente.
Tem piscina aqui no hotel, mas estou resistindo ferozmente a usá-la, porque aí teria que publicar uma foto minha de sunguinha no blog, e minha barriguinha faria todas minhas não-leitoras perder o sono e ter pesadelos. E aí,pra fechar a noite, cineminha a dois dólares por cabeça. E voltar pro hotel sendo acariciado pelos 3 graus centígrados lá fora. Se deus existisse, ele seria quântico. Manifestar-se-ia por um intervalo ínfimo de tempo, e então desapareceria no vácuo novamente.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
08/10 - Bozeman - Montana
Bozeman tem, finalmente, pela primeira vez na viagem, uns 5 quarteirões que dá para chamar de algo como uma rua comercial, com lojas e restaurantes se sucedendo. Aqui os museus custam dinheiro, inclusive os 10 dólares que concluí que os fósseis expostos em um deles não valiam.
À tarde, mais uma de minhas frequentes cefaléias nesta viagem, não sei se pelos relativamente longos períodos sem comer, se por causa do vento frio batendo na cara, ou se devidas ao câncer inoperável que depois de 42 anos de sentença de vida, finalmente fiz por merecer. E a dor de cabeça provavelmente levou à hipotensão, que por sua vez levou à náusea (a mais mundana, não a de Sartre...). E então lá estava eu, na frente do hambúrguer mais caro da viagem até aqui, e tendo que lutar agonizantemente com meu peristaltismo, que não se decidia entre devolver ao mundo a comida de mais cedo, que afinal não havia cometido pecado algum, ou me permitir engolir as bocadas da refeição pela qual eu havia pago tão caro. Valente e obstinadamente, após mastigar por 5 minutos cada mordida do sanduíche, consegui empurrá-lo à força para baixo, com uma pequena ajuda do analgésico, que a esta altura começava a fazer efeito.
Agora, depois de umas 7 visitas frustradas ao banheiro da lanchonete, sob o olhar meio atônito da garçonete, tudo em paz de novo, e prestes a entrar em mais um bumbão. Mas foram uns 10 dólares lastimavelmente desperdiçados...
À tarde, mais uma de minhas frequentes cefaléias nesta viagem, não sei se pelos relativamente longos períodos sem comer, se por causa do vento frio batendo na cara, ou se devidas ao câncer inoperável que depois de 42 anos de sentença de vida, finalmente fiz por merecer. E a dor de cabeça provavelmente levou à hipotensão, que por sua vez levou à náusea (a mais mundana, não a de Sartre...). E então lá estava eu, na frente do hambúrguer mais caro da viagem até aqui, e tendo que lutar agonizantemente com meu peristaltismo, que não se decidia entre devolver ao mundo a comida de mais cedo, que afinal não havia cometido pecado algum, ou me permitir engolir as bocadas da refeição pela qual eu havia pago tão caro. Valente e obstinadamente, após mastigar por 5 minutos cada mordida do sanduíche, consegui empurrá-lo à força para baixo, com uma pequena ajuda do analgésico, que a esta altura começava a fazer efeito.
Agora, depois de umas 7 visitas frustradas ao banheiro da lanchonete, sob o olhar meio atônito da garçonete, tudo em paz de novo, e prestes a entrar em mais um bumbão. Mas foram uns 10 dólares lastimavelmente desperdiçados...
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